“Quando eu olho ao redor eu sonho; quando olho em meu interior eu acordo”Nesses últimos dias, tive a impressão de que os males se enferveceram em nosso país, em se tratando do mundo espiritual. Temos a volta dos Hernandes, temos a guerra midiática Globo x Record e temos Silas Malafaia em mais um capítulo da série “desconstruindo o Evangelho”.
Apesar de tentar ficar distante desse cenário macabro da realidade evangélica brasileira, não me contive em ter que dar minha opinião, pois em meio a esse caos só restam às pedras clamarem.
Primeiramente é preciso deixar claro que a guerra Globo-Record não é uma guerra espiritual, como muitos dizem, pois o Sr. Edir Macedo sequer se lembra de que o Brasil é formado por centenas ou milhares de outras denominações, vivendo um oásis espiritual particular. Dentro da história da existência da tevê Record, ela nunca foi um canal de televisão evangélico. O Sr. Macedo e o seu reinado encontrou um adversário à altura. A briga é por dólares, euros, espaço no mundo da comunicação. É preciso destacar que o Sr. Macedo sempre se destacou mais por seus dotes empresariais do que por seus dotes ministeriais. Por isso, é preciso que os verdadeiros protestantes da nação brasileira estejam fora dessa briga “de cachorros grandes”.
No atual contexto político-social e agora religioso do Brasil, fica difícil acreditar que o slogan criado pelo Sr. Hernandes se concretize. Está difícil acreditar que o Brasil será do Senhor Jesus, a não ser que surja um alto-executivo com posses, com lobby suficientes para agradar a muitos sanguessugas do contexto evangélico brasileiro, e que de forma irônica tenha o nome de Jesus.
Sem contar nesse contexto o Sr. Silas Malafaia Macgyver, com suas incríveis e mirabolantes formas de justificar o seu Evangelho da vitória do Eu. Com as profetadas do “raposa-velha” Morris Cerullo, tenta trazer para si a mesma fórmula de Hernandes e Macedo para o crescimento financeiro.
Nesse contexto, em meio a pedidos de minha opinião sobre os fatos, me veio em mente o livro de Caio Fabio com um título bastante sugestivo para todos que estão nauseando com tudo o que vemos e ouvimos. Nas primeiras páginas desse livro, o Pr. Caio traz um “glorio-ossário”, definindo o que é igreja: “Igreja com I maiúsculo corresponde ao que Jesus e o Novo Testamento definem como igreja; ou seja, o encontro com Deus e um com os outros em nome de Jesus e em acordo de fé com o Evangelho. Agora ‘igreja’ (entre aspas) é a representação histórico-institucional do fenômeno histórico, social, econômico, político e culturalmente auto definido como ‘igreja’, e que tem uma hierarquia (clero), sigla (denominação), geografia fixa (prédio) e membros sócios! Ou seja: a igreja que se identifica pelo marketing e pela mídia.”
De forma bastante irônica, o Pr. Caio também define o que evangélico: “é o ente que crê no Evangelho e que crê na salvação em Jesus conforme a Graça revelada em Cristo. Por exemplo, o Ap. Paulo era um genuíno evangélico”. Porém, há também o “evangélico”: “é o ente que se utiliza da fé em Jesus através da mediação da ‘igreja evangélica’, que é a autodefinição coletiva dos cristãos, que nem sempre confiam ou gostam uns dos outros, mas que só se enxergam coletivamente sob esse guarda-chuva furado debaixo para cima pelas pontas afiadas dos guarda-chuvas menores que cada um usa para garantir sua própria proteção enquanto aniquila o que confessa como devoção: o Evangelho!”
Dentre esses, há a definição de discípulo de Jesus: “é o ser que apesar de se reconhecer relativo, se sabe pela fé na Graça de Deus que gera o dom da fé, como alguém que é irreversivelmente de Jesus e que aprendeu que o caminho acontece na companhia de irmãos, que sempre sujam os pés na jornada, por isso lavam os pés uns dos outros em nudez, mas que crêem que quem já está limpo pela Palavra de Cristo não necessita lavar senão somente os pés”.
Com isso, defino que alguns homens ditos ou proclamados como profetas, bispos, apóstolos, pastores necessitam se redescobrir dentro desses conceitos. O Ap. Paulo proclamou: “sede meus imitados como eu sou de Cristo” (1 Co 11.1). Pergunto: seria possível imitar a algum dos homens acima citados ou ainda outros em evidência?
O Evangelho da barganha, o Evangelho do toma-lá-dá-cá nos faz perder a figura central do Cristo e de Sua Escritura. O Evangelho midiático nos faz ver homens e mulheres em busca incansável da autopromoção de suas performances a fim de satisfazer seus egos. Esse é o Evangelho da causa e do efeito, das fórmulas mágicas, do magnetismo centralizado em coisas, em formas. Tudo tem que ser palpável. É um Evangelho que não transcende, não leva à reflexão, não produz crescimento e nem produz novos nascimentos. Não traz o ser humano ao encontro consigo e com seu Criador.
Alguém já ouviu algum sermão dos ditos profetas da mídia, que destaquem a degradação humana, as questões ecológicas, as questões sócio-políticas, a degradação sócio-econômica dos milhões e milhões de miseráveis ao redor do mundo? Alguém me citaria um sermão que fale da bioética, citando os inúmeros que sofrem em decorrência das indefinições incompetentes e ignorantes da igreja em relação às células-tronco? Algum desses homens trouxe alguma contribuição em questões como o aborto, a prostituição infantil, a homossexualidade sem homofobia, as questões tecnológicas que aos poucos estão criando exércitos de analfabetos funcionais? Alguém já viu algum desses senhores conduzindo a opinião pública em prol de lutas sociais, em busca de justiça aos menos favorecidos diante da esmagadora opressão da má distribuição de renda? Algum desses homens poderia espelhar alguns ícones do mundo protestante, como por exemplo Martin Luther King?
Sabe por que isso não é possível? Porque no evangelho da barganha não há lugar para o próximo, pois o grande objetivo é o destaque pessoal. Esse é o evangelho da vitória, onde o fraco é aquele que demonstra sua fragilidade interior. É preciso estar sempre no trono, mesmo que seja através de mentiras, como o casal Hernandes.
Deixo aqui a indicação do livro “Sem Barganhas com Deus” do Pr. Caio que é uma fonte bastante inspiradora para respostas à atual situação. Com tudo isso, retorno novamente à Palavra que traz em destaque maldito o homem que confia no homem. Assim como Paulo, caminho continuamente em busca da estatura do varão perfeito, o Cristo. Voltemos à Palavra e à busca contínua de Sua revelação. A Igreja deve ser a voz profética para o mundo, porém jamais existirá homem ou mulher a ser exaltado. Caminhemos na liberdade de Cristo, porém com nossos pés calcados no Evangelho, com nossos olhos bastante abertos e iluminados pela luz do Seu Santo Espírito.
Em Cristo, Aquele que realmente vive em mim.
Fonte:As Pedras Clamam












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